Ilusão ou Realidade
Foi aprovada, no último plenário da Assembleia Legislativa, uma anteproposta de lei que visa reduzir a idade da reforma nos Açores de 67 anos e 7 meses para 64 anos e 3 meses. A justificação apresentada baseou-se no facto de a esperança de vida na Região ser a mais baixa do país.
No entanto, não foram considerados outros dados relevantes, como a taxa de mortalidade infantil – a mais elevada do território nacional – e outros fatores determinantes que influenciam esta média.
A Constituição Portuguesa consagra a igualdade de direitos e deveres para todos os cidadãos, independentemente da sua localização geográfica (artigo 13.º). Assim, não prevê idades de reforma diferenciadas entre regiões. A legislação sobre a idade da reforma é uma matéria de política nacional, pelo que cabe à Assembleia da República (AR) apreciá-la e votá-la.
Embora existam regimes específicos para certas profissões, como as atividades agrícolas ou de risco, uma diferenciação regional na idade da reforma poderia ser considerada discriminatória e, salvo melhor opinião, inconstitucional, a menos que houvesse uma justificação sólida e compatível com os princípios constitucionais.
O Governo Regional, ao propor esta medida, tem garantias de que não viola a Constituição? Está certo da sua aprovação pela AR ou estará apenas a alimentar uma ilusão? Os açorianos merecem soluções concretas que melhorem, de facto, a sua qualidade de vida e invertam os indicadores mais baixos do país. No entanto, não necessitam de falsas expectativas.
Religião e Política Devem Permanecer Separadas
Respeito as tradições e compreendo que muitas celebrações municipais estão ligadas ao santo padroeiro ou à padroeira, mas considero que o ato solene das comemorações não deve ser realizado na igreja. O que é de Deus é de Deus, e o que é da política deve permanecer na esfera pública. A igreja é um espaço de fé e oração, não de balanços administrativos ou discursos sobre governação.
Ainda que algumas localidades mantenham esta prática há muitos anos, não me parece adequado generalizá-la. A política tem os seus próprios locais para os momentos solenes, sem misturas que possam desvirtuar a verdadeira essência da igreja.
O recente caso do Dia da Freguesia da Matriz é um exemplo de como é possível realizar uma cerimónia digna, bem organizada, com elevação e verdadeiro significado. Aliás, tem sido esse o apanágio da liderança do Presidente da Junta de Freguesia, Laurénio Tavares, que tem sabido conduzir estas ocasiões com respeito pelas tradições e pela separação entre fé e política.
Quando o Trabalho se Perde na Imagem
Quando os políticos se focam excessivamente na autopromoção, tirando fotografias em todos os eventos e partilhando cada gesto nas redes sociais, acabam por desvirtuar até o trabalho que, por vezes, tem mérito e deveria ser enaltecido.
Em vez de destacarem as ações e conquistas que realmente beneficiam a comunidade, transformam as suas realizações num espetáculo pessoal. Ao criticarem os antecessores por práticas semelhantes e, depois, adotarem os mesmos comportamentos, revelam uma incoerência flagrante, desviando a atenção do que realmente importa.
A busca incessante por visibilidade acaba por se sobrepor ao valor real do trabalho feito, tornando-o mais uma ferramenta de promoção da imagem do que um esforço genuíno pelo bem comum. Esse tipo de atitude mina a credibilidade dos políticos, que deixam de ser vistos como pessoas comprometidas com o serviço público para passarem a ser encarados como políticos mais preocupados em construir uma imagem pessoal do que em fazer a diferença efetiva para a sua terra.
Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL)
A participação na BTL é, ou não, uma oportunidade importante para promover o Faial, mas é essencial questionar se o investimento justifica os resultados. Com voos Lisboa-Horta-Lisboa para não residentes a custarem mais de 500 euros durante os meses de julho e agosto de 2025, surge a dúvida sobre como podemos efetivamente vender o destino Faial, quando não há voos disponíveis em quantidade suficiente.
Como ficam os residentes e os filhos da terra? Quanto foi investido em promoção e qual o retorno económico real? Sem uma medição clara de resultados, torna-se difícil avaliar o impacto da participação. A promoção sem indicadores concretos de sucesso pode ser apenas visibilidade, sem gerar um retorno efetivo para a economia local.
A verdadeira questão é saber se os recursos aplicados estão a gerar resultados suficientes ou se poderiam ser melhor direcionados para estratégias mais eficazes, que contemplem uma maior acessibilidade e disponibilidade de voos para servirem primeiro os faialenses e, depois, os turistas.
Tradição e Turismo: Equilíbrio Necessário
A recente utilização da Coroa do Espírito Santo, do Império dos Nobres, na Bolsa de Turismo de Lisboa, para promover o turismo religioso, levanta, na minha opinião, questões éticas e culturais. Como faialense, preocupa-me ver símbolos tão significativos para a nossa identidade coletiva reduzidos a uma estratégia de marketing.
O Voto de Pentecostes, de 1672, representa um compromisso espiritual e comunitário. Usá-lo como mero elemento promocional pode banalizar o seu significado para aqueles que vivem esta devoção de forma autêntica.
Não questiono a importância do turismo, essencial para a economia local. No entanto, a promoção do destino deve respeitar os valores da comunidade. Esta não é uma questão exclusiva dos Açores, e creio que merece reflexão. Há formas de divulgar as nossas tradições sem recorrer a encenações de cortejos em honra do Divino Espírito Santo.
Defendo um turismo que valorize a nossa cultura sem distorcer a sua essência. A fé não deve ser mercantilizada, e o património espiritual merece respeito. Não duvido das boas intenções da iniciativa, mas considero essencial debater este tema para encontrar um equilíbrio entre desenvolvimento económico e identidade cultural, garantindo que a tradição seja promovida com dignidade.