Há menos de oito dias estava eu a escrever, neste mesmo espaço, sobre candidatos da nossa ilha às eleições legislativas nacionais. Não tencionava voltar ao tema pois prefiro ocupar-me de assuntos locais. Para comentar os assuntos do país já há muitos e mais habilitados do que eu.
Se hoje volto às próximas legislativas é porque o caso tem implicação regional.
Ficou a saber-se que o coordenador do PPM nos Açores e secretário-geral a nível nacional, Paulo Estêvão, é o nome indicado pelo Partido para ocupar o lugar de Primeiro-ministro após as eleições.
Quando estiver com os pés em Portugal continental, Paulo Estêvão faz campanha contra o PSD e o CDS; quando estiver com os pés nos Açores, faz campanha a favor dos mesmos partidos. Será obra.
A pergunta mais difícil a que Paulo Estêvão teria que responder é como vai votar nas próximas eleições. O que vale é que o voto é secreto.
Atrevo-me todavia a adiantar que a sua opção vai ser ajudar a eleger deputados açorianos, que vão integrar um grupo parlamentar na Assembleia da República cuja formação ele tentou combater durante a campanha eleitoral.
Os partidos, quando lhes dá jeito, evocam as respetivas autonomias regionais. Em todo o caso não se pode querer sol na eira e chuva no nabal.
Que raio de compromisso é este com o Governo Regional, de que Paulo Estêvão é membro, e com os seus parceiros de coligação nos Açores?
E o presidente do Governo ainda diz, com a tranquilidade que lhe é reconhecida, que se trata de uma decisão partidária, portanto, nada tem a ver com isso.
Não há dúvida que o nível dos protagonistas da política baixou muito.
Só a tontice do Partido Popular Monárquico consentiria uma situação destas. E José Manuel Bolieiro ainda diz que cada um sabe de si.
Costuma dizer-se que quem tudo quer, tudo perde. Paulo Estêvão revela sintomas de querer tudo. Talvez venha a ficar sem nada.
Já perdeu o Corvo, onde foi fazer o seu ninho político, beneficiando de um universo eleitoral reduzido e muito específico, para conseguir ser eleito deputado à Assembleia Regional.
Depois de muitas vitórias concorrendo sozinho, nas eleições do ano passado, concorrendo pela Aliança Democrática, ficou atrás do Partido Socialista. Talvez seja essa memória vitoriosa a sua inspiração.
Agora lança-se numa tirada nacional para ganhar notoriedade, nomeadamente em algum debate para o qual se lembrem de o convidar a participar, e através da cobertura que espera para a sua campanha eleitoral. Só faltará ver Bolieiro e Artur Lima a seu lado na rua e nas televisões.
Para evitar este imbróglio o PPM tinha à mão uma boa solução. Se Gonçalo da Câmara Pereira, o paladino da nacional causa monárquica, não quer, podia ter recorrido ao histórico Manuel São João, reabilitando assim um militante experiente que Paulo Estêvão tinha levado para o Governo anterior quando ainda não podia dispor do novel corvino Paulo Margato.
Este problema não justificaria qualquer preocupação se fosse exclusivamente do PPM. Seria tão irrelevante como o próprio partido. Mas não é assim. Como escrevi no início, o caso tem importância a nível regional.
José Manuel Bolieiro tem no seu governo um secretário regional que serve a dois senhores. Com que autoridade fica agora o presidente do Governo para lhe dar ordens? E com que legitimidade Paulo Estêvão poderá exigir de Bolieiro a execução dos compromissos assumidos no âmbito do acordo da coligação que governa os Açores?
Vamos ter, daqui até às eleições, quer dizer, só até lá se o PPM não as vencer, pela primeira vez, um membro do Governo Regional em part-time.