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Horta, 193 anos de Cidade. Estados Unidos da América, 250 anos de Independência

por Incentivo
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Ao longo de mais de cinco séculos, a Horta soube sempre encontrar uma nova forma de se afirmar no Atlântico. Esse é o maior legado que recebemos das gerações que nos antecederam. Que não sejamos nós a quebrar essa história.

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No próximo dia 4 de julho, a Horta celebrará, uma vez mais, a sua elevação de Vila a Cidade, numa data que coincide, todos os anos, com o Dia da Independência dos Estados Unidos da América. Em 2026, esta efeméride norte-americana assume um significado muito particular, ao assinalar-se o 250.º aniversário da Independência. A celebração dos 193 anos da Cidade da Horta reveste-se, assim, de um simbolismo acrescido, evocando uma relação histórica construída ao longo de mais de dois séculos entre o Faial, os Açores e os Estados Unidos da América.

A Horta é muito mais do que uma cidade açoriana. É uma cidade atlântica, moldada pelo mar, pela sua localização privilegiada e pela capacidade de se afirmar como ponto de encontro entre povos, culturas e continentes. Ao longo da sua história, soube transformar a sua posição geográfica numa oportunidade, acolhendo navegadores, comerciantes, diplomatas, cientistas, militares, emigrantes e viajantes de todas as partes do mundo. Poucas cidades portuguesas desempenharam um papel tão relevante nas ligações entre a Europa e a América.

A relação com os Estados Unidos começou cedo. Em 1795 foi criado na Horta o primeiro Consulado dos Estados Unidos nos Açores, reconhecimento da importância estratégica que a cidade já assumia nas rotas atlânticas. A família Dabney escolheu o Faial para desenvolver a sua atividade comercial, deixando
um legado económico, patrimonial e cultural que ainda hoje constitui uma das marcas da identidade faialense.

A baleação americana aproximou definitivamente os dois povos. Muitos faialenses embarcaram em navios da Nova Inglaterra, iniciando uma corrente emigratória que deu origem a fortes comunidades açorianas nos Estados Unidos e a milhares de histórias de vida que continuam a unir as duas margens
do Atlântico.

Foi também na baía da Horta que, em setembro de 1814, se travou a histórica Batalha do Brigue General Armstrong. A resistência do pequeno corsário americano, comandado por Samuel Chester Reid, perante uma força naval britânica muito superior, transformou este episódio num símbolo da coragem e da determinação da jovem República americana durante a Guerra de 1812.

Embora a independência dos Estados Unidos já estivesse conquistada, este combate ficou associado à afirmação da sua soberania e ao fortalecimento da identidade nacional americana, ocupando um lugar de relevo na memória histórica dos Estados Unidos. A Horta orgulha-se de ter sido o palco de um dos
episódios mais emblemáticos dessa história comum.

Mais tarde, os grandes paquetes transatlânticos e os navios a vapor fizeram da Horta uma escala incontornável nas ligações entre a Europa e a América. Com a chegada dos cabos submarinos, a cidade voltou a assumir uma dimensão mundial, tornando-se um dos mais importantes centros internacionais das comunicações. A presença das companhias de cabos trouxe à Horta técnicos e famílias de várias nacionalidades, contribuindo para fazer dela uma das cidades mais cosmopolitas de Portugal. Essa vocação atlântica prolongou-se naturalmente com a aviação transatlântica, primeiro através dos hidroaviões e, mais tarde, com o Aeroporto da Horta, que consolidou o papel estratégico da ilha nas ligações entre a Europa e a América.

Em 1957, a erupção do Vulcão dos Capelinhos marcou profundamente a história do Faial. A resposta solidária dos Estados Unidos, através do Azorean Refugee Act, permitiu que milhares de açorianos encontrassem uma nova oportunidade de vida do outro lado do Atlântico. Muitos abraços transformaram-se em saudade, mas nunca deixaram de existir. Pelo contrário, fortaleceram uma ligação humana, cultural e afetiva que permanece viva em milhares de famílias açorianas e luso-americanas.

Ao longo de quase seis séculos, a Horta nunca deixou de se reinventar. Foi porto de navegadores, porto da baleação americana, cidade dos cabos submarinos, escala da aviação transatlântica e é hoje uma referência internacional da náutica, da investigação científica do oceano e da valorização do seu património natural e cultural. A sua história demonstra que nunca foi a dimensão da ilha que definiu a sua importância, mas sim a capacidade das suas gentes para olhar além do horizonte.

Celebrar os 193 anos da Horta, numa era cada vez mais centralista, não pode significar apenas recordar o passado. A melhor homenagem que podemos prestar aos que construíram esta cidade, esta ilha é recuperar a ambição que sempre caracterizou os faialenses. Defender o Faial, preservar o seu património, valorizar a sua identidade e afirmar a nossa ilha no contexto regional, nacional e atlântico exige liderança e determinação. O nosso passado deve ser uma inspiração para construir um futuro mais forte, mais justo e mais ambicioso.

Parabéns à Horta pelos seus 193 anos de Cidade.

Parabéns aos Estados Unidos da América pelos seus 250 anos de Independência.

Ao longo de mais de cinco séculos, a Horta soube sempre encontrar uma nova forma de se afirmar no Atlântico. Esse é o maior legado que recebemos das gerações que nos antecederam. Que não sejamos nós a quebrar essa história.

Porque uma cidade que fez tanto pelo seu passado só por falta de visão poderá desperdiçar a oportunidade de construir um futuro à sua altura.

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