Opinião A Estratégia da Dependência por Incentivo 2 de Junho, 2026 publicado por Incentivo 2 de Junho, 2026 44 visualizações 44 Hoje, concluídos os principais ciclos de decisão do PRR, a Região continua sem um plano consistente para o transporte marítimo de passageiros e sem qualquer visão clara sobre o papel que este deve desempenhar na mobilidade interilhas. [ihc-hide-content ihc_mb_type=”show” ihc_mb_who=”4,3,2,1″ ihc_mb_template=”1″ ] Os Açores são um arquipélago. Parece uma evidência tão básica que não deveria precisar de ser repetida. No entanto, quando analisamos as políticas públicas dos últimos anos para a mobilidade interilhas, percebemos que os sucessivos governos parecem ter esquecido esta realidade fundamental. A continuidade territorial dos Açores não se faz por estrada. Faz-se por mar e por ar. E é precisamente por isso que a Região deveria dispor de uma estratégia integrada de transportes, em que os modos marítimo e aéreo funcionassem de forma complementar, reforçando-se mutuamente e garantindo alternativas sempre que um deles falhasse. Mas essa estratégia nunca existiu. O transporte marítimo de passageiros tem sido tratado como uma atividade sazonal, sem visão de longo prazo, sem investimento estruturante e sem qualquer ambição de desenvolvimento. Em vez de construir um sistema resiliente e moderno, capaz de servir residentes, empresas e turistas durante todo o ano, a Região limitou-se a gerir dificuldades, adiar decisões e acumular dependências. A situação torna-se ainda mais grave quando recordamos que os Açores tiveram à sua disposição uma oportunidade única através do Plano de Recuperação e Resiliência. Nunca houve tantos recursos financeiros disponíveis para modernizar infraestruturas, investir em novas soluções de mobilidade marítima, desenvolver embarcações mais eficientes e sustentáveis ou criar uma verdadeira rede regional de transportes integrada. No entanto, não surgiu qualquer programa estruturado de renovação da frota de passageiros, não foi apresentada uma estratégia para assegurar ligações marítimas regulares e fiáveis ao longo de todo o ano e continuou por definir o papel que o transporte marítimo deve desempenhar na mobilidade interilhas. Em vez de aproveitar os recursos extraordinários disponíveis para resolver problemas estruturais, a Região voltou a adiar decisões fundamentais. Enquanto outras regiões utilizaram os fundos europeus para preparar o futuro, os Açores deixaram passar uma oportunidade histórica para reforçar a sua coesão territorial e construir um sistema de transportes mais resiliente. Hoje, concluídos os principais ciclos de decisão do PRR, a Região continua sem um plano consistente para o transporte marítimo de passageiros e sem qualquer visão clara sobre o papel que este deve desempenhar na mobilidade interilhas. O mais preocupante é que, em paralelo, tem vindo a ganhar força uma visão excessivamente concentradora da conectividade regional. Defende-se, na prática, que cada vez mais fluxos de passageiros e ligações dependam de um único centro operacional. Trata-se de uma opção que ignora a própria natureza arquipelágica dos Açores. Os frequentes constrangimentos provocados pelos nevoeiros em São Miguel demonstram regularmente os riscos desta dependência. Quando uma única ilha concentra demasiadas funções estratégicas, toda a Região fica mais vulnerável. E exemplos recentes, como o incêndio no Hospital de Ponta Delgada, demonstraram de forma inequívoca como a excessiva concentração de serviços e funções estratégicas pode aumentar a vulnerabilidade de toda a Região. Situações meteorológicas adversas ou emergências inesperadas revelam rapidamente as fragilidades de sistemas excessivamente centralizados. Os Açores precisam exatamente do contrário. Precisam de mais descentralização, mais redundância e mais alternativas. Necessitam de uma rede de transportes que distribua riscos em vez de os concentrar e de ligações marítimas regulares e fiáveis que complementem o transporte aéreo, reforçando a coesão territorial e garantindo que nenhuma ilha fica dependente de uma única solução. A complementaridade não é um custo. É um investimento em segurança, resiliência e desenvolvimento. Infelizmente, o atual Governo Regional também parece não compreender esta realidade. Em vez de apresentar uma estratégia para o transporte marítimo de passageiros, continua a limitar-se à gestão corrente, sem objetivos claros, sem planeamento e sem visão para as próximas décadas. Num arquipélago, a ausência de estratégia é, por si só, uma estratégia. E, neste caso, é uma estratégia de dependência, centralização e fragilidade. Os Açores merecem melhor. Merecem uma política de transportes que reconheça que a continuidade territorial não se decreta, constrói-se. Constrói-se com investimento, planeamento e visão; criando alternativas, distribuindo riscos e reforçando a coesão entre todas as ilhas. Porque a força dos Açores nunca esteve na concentração. Sempre esteve na capacidade de manter unidas nove ilhas dispersas pelo Atlântico. Num arquipélago, ligar é governar. E é essa realidade que qualquer estratégia de transportes digna desse nome deve servir. [/ihc-hide-content] A estratégia da dependênciaJoão Garcia 0 FacebookTwitterPinterestE-mail publicações anteriores Festival Maravilha regressa com seis dias de música à ilha do Faial próximas publicações Greve Geral vai afetar “seriamente serviços públicos nos Açores Leia também Em memória do meu amigo Álvaro Matos, que... 16 de Julho, 2026 Capital Europeia da Cultura: Compromisso Regional 14 de Julho, 2026 Os Filhos da Reconstrução 7 de Julho, 2026 Reflexões a 4 anos da Agenda 2030: Será... 6 de Julho, 2026 Em memória do meu amigo Álvaro Matos: Quando... 2 de Julho, 2026 Horta, 193 anos de Cidade. Estados Unidos da... 30 de Junho, 2026 Deixe um comentário Cancelar resposta Guardar o meu nome, e-mail e página Web neste navegador para a próxima vez que eu comentar. Δ