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Em memória do meu amigo Álvaro Matos, que me avisou do 25 de Abril…

por Incentivo
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Na noite de 24 para 25 de Abril de 1974, pelas 23:30 horas, alguém tocou à campainha da minha porta…

Fiquei surpreendido, ao abrir a porta e ao dar de caras contigo.

Entraste, estendeste-me um embrulho e disseste-me:

– Tenho que te entregar o que me confiaste porque esta noite o RAP 3 vai avançar em direcção a Lisboa e, se as coisas correrem mal, não podem encontrar isto em minha casa…

 

Conhecemo-nos, como escrevi aqui, em Outubro de 1971.

Tornámo-nos amigos e companheiros de luta, tendo passado a participar, juntos, em acções do movimento estudantil e em iniciativas da Oposição Democrática.

Fizemos amigos, entre eles um mais próximo, o Zé Frederico, nosso condiscípulo, em cuja casa passámos a estudar, à noite, as nossas cadeiras.

Em 1971 já fora desmascarada a encenação de pseudo-liberalização que a ditadura ensaiara, à qual houve quem chamasse, alguns com ingenuidade, outros insidiosamente, a «primavera marcelista»…

A oposição ao regime intensificou-se: as lutas dos trabalhadores, dos democratas e dos estudantes, entre outras, não pararam de crescer e a guerra colonial tornou-se objecto de contestação generalizada.

O regime aumentou brutalmente a repressão: a PIDE/DGS efectuou, sob os governos de Marcelo Caetano, 1.891 prisões (uma média de 270 prisões por ano), mas no ano de 1973 efectuou 561 prisões, ou seja, quase o dobro daquela média. 1

E criou um novo instrumento repressivo para os estudantes universitários: alterou, em Julho de 1969, o art. 24º da Lei nº 2135, de1968, que passou a dispor que o adiamento da incorporação militar dos estudantes deixava de depender só do seu aproveitamento académico, ficando também dependente de demonstrarem terem «bom comportamento escolar [político]».

Fomos 49, eu incluído, os estudantes universitários de Coimbra mobilizados, pela primeira vez, ao abrigo desta lei, em 12.10.1969, para o Curso de Oficiais Milicianos (C.O.M.), na Escola Prática de Infantaria (E.P.I.), em Mafra. 2

Foram tempos exaltantes, mas duros…

Eu, como membro do então ilegal PCP, tinha que respeitar regras conspirativas cujo cumprimento era condição de sobrevivência dos militantes e dos organismos partidários.

Libertado, 5 meses antes, da Prisão Política de Caxias, deixei de ter em casa, em cumprimento dessas regras, documentos do PCP e passei a pedir a amigos em quem confiava pessoal e politicamente, como era, entre outros, o teu caso e o do Zé Frederico, que mos guardassem até eu precisar deles.

Emprestaste-me o teu carro para eu me deslocar a encontros do PCP, ajudando-me a iludir a vigilância da PIDE.

O Zé Frederico cedeu-me a casa para nela eu fazer uma reunião, na qual participou um camarada meu clandestino.

A tua conduta e a do Zé Frederico foram sempre discretíssimas: jamais me perguntaram que documentos é que eu pedira que guardassem ou para que fins é que te pedi emprestado o carro ou a ele que me cedesse a casa…

Em 1973, apesar de teres aproveitamento académico, foste incorporado no serviço militar e seguiste para a E. P. I., em Mafra, para frequentar o C.O.M..

Eras arguido num processo disciplinar que o Director da Faculdade de Direito te tinha instaurado com fundamento em teres participado no boicote de uma aula, no contexto de uma greve às aulas, em prol da reabertura da Associação Académica de Coimbra.

E, à luz do citado art. 24º, al. a), da Lei nº 2135, tal bastava para deixares de beneficiar do adiamento do serviço militar.

Foste colocado, nos inícios de 1974, creio, no Regimento de Artilharia Pesada 3 (RAP 3), na Figueira da Foz.

Na noite de 24 para 25 de Abril de 1974, pelas 23:30 horas, alguém tocou à campainha da minha porta…

Fiquei surpreendido, ao abrir a porta e ao dar de caras contigo.

Entraste, estendeste-me um embrulho e disseste-me:

– Tenho que te entregar o que me confiaste porque esta noite o RAP 3 vai avançar em direcção a Lisboa e, se as coisas correrem mal, não podem encontrar isto em minha casa…

Pouco antes fracassara o “golpe das Caldas”, falava-se na iminência de um golpe dos “ultras”, chefiado por Kaúlza de Arriaga.

Perguntei-te:

– Isso não é coisa do Kaúlza? Ou é coisa boa?

Respondeste-me que era «para acabar com a guerra colonial, para instaurar a democracia e libertar os presos políticos»!

Não podia nem devia perguntar-te mais nada.

Abraçámo-nos e partiste.

Foste tu, assim, que me avisaste do 25 de Abril…

Conheci depois, pelos jornais, a missão da coluna que saiu, nessa madrugada, do
RAP 3, sob o comando do Capitão Dinis de Almeida: ocupar o Forte-Prisão de Peniche
e o Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS)…

Apresentaste-me depois o Capitão Dinis de Almeida, mas essa é uma história
para outra crónica…

 

1 Fonte: RTP Arquivos (Comissão do Livro Negro do Regime Fascista, consultável em
https://50anos25abril.pt/historia/prisoes-da-ditadura/os-presospolitiocos-em-portugal/).
2 ALBERTO MARTINS, Peço A Palavra – Coimbra 1969, Verbo, 2019, p. 239.

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