Opinião A fadiga do extraordinário por Incentivo 18 de Março, 2026 publicado por Incentivo 18 de Março, 2026 44 visualizações 44 Num tempo em que quase tudo procura parecer maior do que é, talvez a lucidez consista apenas em recuperar a medida: chamar às coisas pelo seu nome, devolver peso às palavras e recordar que uma sociedade madura não se engrandece pelo número de superlativos que usa, mas pela clareza com que distingue o essencial do acessório. Este conteúdo é Exclusivo para Subscritores do Jornal Incentivo Faça Login para Desbloquear! Conheça aqui os nossos planos de subscrição. Manter sessão Perdeu a sua password? Não tem uma conta? Subscrever Vivemos num tempo em que quase nada se permite existir com a serenidade do que é apenas real. Tudo parece precisar de nascer envolto em grandeza, como se o simples já não bastasse para captar atenção nem o mérito discreto fosse suficiente para justificar reconhecimento. Uma ação corrente surge como marco, uma iniciativa previsível adquire contornos de feito excecional, uma repetição é apresentada como novidade e, pouco a pouco, a linguagem vai-se afastando da realidade que pretende descrever. O extraordinário deixou de ser categoria rara para se tornar fórmula corrente. Multiplicam-se expressões definitivas, superlativos absolutos, anúncios de pioneirismo, referências constantes ao inédito, ao maior, ao melhor, ao nunca alcançado. Mas quando tudo se apresenta nesse registo, o próprio significado dessas palavras começa a dissolver-se. O excesso deixa de impressionar e passa apenas a produzir ruído. Também no nosso quotidiano esta lógica se instalou com naturalidade inquietante. Mostra-se repetidamente o mesmo facto com molduras diferentes, altera-se o tom, muda-se a ordem das palavras, acrescenta-se solenidade, e a sucessão de anúncios cria a ilusão de movimento onde muitas vezes há apenas repetição. À força de ser dito muitas vezes, o que é comum adquire aparência de exceção, à força de ser exposto, o que é modesto ganha dimensão artificial. Nem sempre se questiona se aquilo que se proclama pode realmente ser medido, comparado ou sequer avaliado na dimensão em que é apresentado. Muitas vezes basta o selo, o título, a designação sonora, a fotografia certa e a construção de uma narrativa suficientemente enfática para que o anúncio se imponha como evidência. O prestígio passou a depender menos da substância do que da forma como é comunicado. Talvez por isso se tenha tornado tão difícil distinguir reconhecimento de promoção, mérito de formalidade, relevância de mera circulação de linguagem. E não deixa de ser revelador que tantas vezes a notícia surja já acompanhada da palavra que a pretende validar: excelência, distinção, referência, liderança. Como se a designação dispensasse a necessidade de prova. O problema não está apenas no discurso, está no hábito coletivo de o aceitar sem distância crítica. De tanto convivermos com esta inflação verbal, habituámo-nos a ela. Já não estranha que tudo seja anunciado como singular, nem causa desconforto que quase tudo procure apresentar-se acima da sua própria escala. A insistência tornou-se argumento, e a repetição passou a valer como confirmação. Entretanto, aquilo que verdadeiramente sustenta uma comunidade continua quase sempre fora deste foco: o trabalho regular, a responsabilidade silenciosa, a competência sem aparato, o cumprimento sem proclamação. Talvez porque a normalidade, hoje, se tenha tornado estranhamente rara. E talvez seja precisamente isso que mais falta: pessoas normais no sentido mais exigente da palavra, capazes de agir sem dramatização, de produzir sem permanente necessidade de validação pública, de compreender que nem tudo precisa de ser excecional para ter valor. Num tempo em que quase tudo procura parecer maior do que é, talvez a lucidez consista apenas em recuperar a medida: chamar às coisas pelo seu nome, devolver peso às palavras e recordar que uma sociedade madura não se engrandece pelo número de superlativos que usa, mas pela clareza com que distingue o essencial do acessório. A fadiga do extraordinário 0 FacebookTwitterPinterestE-mail publicações anteriores Câmara de Ponta Delgada aprova divulgação em vídeo das reuniões públicas próximas publicações Comemorações do 10 de Junho vão ser na ilha Terceira e no Luxemburgo Leia também Em memória do meu amigo Álvaro Matos, que... 16 de Julho, 2026 Capital Europeia da Cultura: Compromisso Regional 14 de Julho, 2026 Os Filhos da Reconstrução 7 de Julho, 2026 Reflexões a 4 anos da Agenda 2030: Será... 6 de Julho, 2026 Em memória do meu amigo Álvaro Matos: Quando... 2 de Julho, 2026 Horta, 193 anos de Cidade. Estados Unidos da... 30 de Junho, 2026 Deixe um comentário Cancelar resposta Guardar o meu nome, e-mail e página Web neste navegador para a próxima vez que eu comentar. Δ