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A testemunha abonatória (III)

por Incentivo
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Iniciada a audiência o Presidente do Colectivo de Juízes, ordena ao arguido que se identifique. Este, balbuciou: – Firmino da Conceição Silva, solteiro e de 58 anos de idade. Então, o Presidente lê acusação. De seguida pergunta se o arguido pretende falar. Este responde que não.

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O Presidente manda que se inicie o interrogatório das testemunhas de acusação. Estas, limitadas a três, após identificação e juramento, durante o interrogatório por parte do Procurador do Ministério Público repetem os depoimentos já feitos noutras situações e que confirmam a presença do réu em redor da habitação da vítima e em atitude suspeita. Não estranharam a ausência do idoso porque, no Inverno, era frequente passar alguns dias sem assumir a uma janela, principalmente às voltadas para a estrada. O Defensor Oficioso, limita-se a breves perguntas de circunstância, pois a sua margem de manobra é limitadíssima.

O Juiz Presidente manda, então, chamar a testemunha abonatória. As pessoas presentes na sala voltam-se, atónitas, para a porta de entrada das testemunhas, pois parecia-lhes inconcebível que alguém se prestasse a tal. Mas esse estado de espírito atingiu as culminâncias, quando viram entrar o dr. Vieira da Costa, médico, que beneficiava da admiração de, praticamente, toda a Ilha, devido à forma competente e humana como exercia a sua profissão, dispensando, com frequência, os seus honorários, quando conhecia o estado de pobreza dos doentes.

Surgiram mesmo exclamações de reprovação, prontamente silenciadas pelo Juiz Presidente.

Imperturbável, a testemunha identifica-se e presta o seu juramento.

Passada a palavra ao Defensor Oficioso, esta pergunta: – O sr. é conhecido como pessoa que goza da estima de praticamente toda a população da Ilha, o que levou a prestar-se a esta situação?

A que a testemunha respondeu: – Sabia que ele ia estar só e apiedei-me dele.- E porquê? – interrogou o Defensor –  Conhece-o? Conheço-o desde que, há mais de cinquenta anos, ingressámos na Instrução Primária.

–  Sabe qual a acusação que pende sobre ele?

– Sei!

– Conte ao Tribunal o que sabe acerca dele.

Começou, então, a testemunha: – O Firmino era uma criança que, para além de ser possuidora de uma rara inteligência, era de extrema simpatia. Poucas semanas após a entrada na escola, já beneficiava da admiração da nossa professora e de todos os condiscípulos. Lamentávamos, no entanto, que, à hora do recreio, enquanto todos nós lanchávamos na própria escola, para podermos brincar um pouco, ele se ausentasse, com a justificação de que preferia almoçar em casa, o que nos deixava a todos intrigados, pois morava a uma distância considerável e, principalmente em dias de mau tempo, era desconfortável.

Uma tarde, ele desmaiou, em plena aula. Como o hospital era perto da escola, foram chamados dois alunos da sala ao lado, onde funcionava a quarta classe, e, consequentemente os alunos mais espigaditos, que o transportaram, acompanhados da professora. Observado por um médico, concluiu-se que se tratava apenas (uma pausa da testemunha ocasionada pela comoção)… de fome. No próprio hospital, deram-lhe uma refeição.

Ficámos sabendo que ele não comia desde a véspera e que as ausências do recreio eram para simular uma ida a casa. Dali em diante, passou a partilhar dos nossos lanches.

Entretanto, a sua cintilante inteligência, continuava surpreendendo toda a gente. Um dia, já no último período da primeira classe, em que a nossa professora se atrasou um pouco, ficámos à porta da outra sala observando os alunos da quarta classe. Um deles, no quadro, em vão tentava resolver um problema. “Não é assim! quase gritou o Firmino”. Gerou-se um grande silêncio. Todos os alunos, e o próprio professor, se voltaram boquiabertos para ele. Passado o espanto, o professor perguntou-lhe: – És capaz de resolver o problema? O Firmino, vermelho como um pimentão, já um pouco arrependido da sua explosão, limitou-se a abanar a cabeça afirmativamente. E foi resolver o problema.

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