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A traiçoeira democracia do poder

por Incentivo
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Se os agentes das nossas instituições sociais, desportivas, culturais, e os jornalistas aceitarem este domínio tão exagerado por parte de quem exerce o poder, talvez venham a acordar tarde.

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O Partido Social Democrata está no governo do país, da região autónoma dos Açores e no município da Horta. Já passou por estes três níveis de poder no passado, mesmo que não em simultâneo.

A minha reflexão de hoje não é motivada por esta circunstância, mas ela ajuda muito a chegar a uma conclusão preocupante.

A nível nacional há uma marca de Montenegro. Para além de se mostrar frequentemente incomodado com os jornalistas, adotou, para o Governo, uma prática muito significativa. Os seus ministros, ou ele próprio, fazem declarações sem direito a perguntas.

A nível regional há outro exemplo neste sentido. A dificuldade no acesso a informação do Governo ou de entidades dele dependentes, é muito grande. Não sou o único jornalista que se queixa. A vontade de ocultar informação é objetiva.

A nível local o desprezo pela comunicação social é evidente.

Conheci, no passado, o PSD no poder. Estes tiques sempre se manifestaram. Mas nunca com a expressão de hoje e nunca de forma tão coordenada.

Da doutrina do Partido, não é. Será de uma inclinação dos seus atuais dirigentes? Talvez seja.

Cá no nosso burgo, já não restam dúvidas.

Veja-se o que aconteceu ontem na Câmara. O Presidente da Câmara convida a comunicação social para a apresentação do Rali, em vez de ser a direção do CAF a fazê-lo. E a conferência de imprensa realiza-se no salão nobre da Câmara Municipal.

Afinal quem organiza o Rali é o CAF, mas é Carlos Ferreira quem o apresenta. Na sua própria casa. Antes não era assim, era na sede do Clube.

Isto revela como o poder abocanha as iniciativas da sociedade dita civil, que se curva a troco de uns dinheirinhos cujo favor tem que ser pago.

Situação semelhante aconteceu recentemente com a apresentação do Trail. Foi o Presidente da Câmara que convidou a comunicação social para a conferência de imprensa. Antes não era assim.

O Presidente da Câmara vai fazendo estas conferências de imprensa anunciando as iniciativas dos outros, bonitas e pacíficas, e servindo-se deles para passear o seu prestígio. Quando é a doer é que a porca torce o rabo.

Há poucos dias, perante o problema da pista molhada do nosso aeroporto, Carlos Ferreira ligou o rotativo e anunciou, em conferência de imprensa, a sua deslocação a Lisboa para resolver o assunto.

Questionado pelos jornalistas sobre a justeza de uma eventual nova manifestação popular, encolheu os ombros e esboçou um sorriso. Não sabia o que havia de dizer. É por esta razão que ele não quer jornalistas perto de si. Jornalistas que fazem perguntas e não se limitam a reproduzir o que ele diz.

Como se viu, foi a Lisboa já com o assunto resolvido e trouxe apenas a notícia que a pista afinal perdeu 50 metros. Não deu conferência de imprensa e omitiu a informação, escudando-se na premissa óbvia de que os presidentes das câmaras não são reguladores da operação aérea.

Porém tirou, e publicou, uma fotografia à porta da sede da ANAC.

Não me demoro em mais exemplos porque o espaço não permite. Em artigos anteriores já referi outros casos que definem o padrão.

Como se tudo isto, que ofende a democracia, não bastasse, tivemos, na semana passada, não um sublinhado do comportamento que aqui tento evidenciar, mas talvez o seu epílogo.

Uma destacada dirigente do PSD do Faial, Salomé Matos, escreveu que os cidadãos devem votar mas não se devem manifestar na rua. Ninguém lhe disse que calar os outros é sempre sinal de cobardia.

Digam-me lá se os dirigentes do PSD estão ou não estão alinhados.

Não julgo que a democracia corra perigo. Mas está seguramente afetada.

Se os agentes das nossas instituições sociais, desportivas, culturais, e os jornalistas aceitarem este domínio tão exagerado por parte de quem exerce o poder, talvez venham a acordar tarde.

Se nos tiram a voz, de pouco serve deixarem-nos votar.

Se isto é democracia, não é a do povo; é a traiçoeira democracia do poder.

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