Opinião Açores e a Semana de 4 Dias por Incentivo 11 de Junho, 2025 publicado por Incentivo 11 de Junho, 2025 259 visualizações 259 Ideias Avançadas, Prioridades Erradas A recente notícia de que o Governo Regional dos Açores está a desenvolver estudos e projectos experimentais sobre a semana de quatro dias de trabalho levanta uma questão essencial: faz sentido avançar para este debate numa região com problemas tão estruturais e urgentes por resolver? A resposta parece evidente. Os Açores enfrentam dificuldades sérias nos serviços públicos, desde longas listas de espera na saúde à escassez de recursos humanos nas escolas, passando por falhas nos transportes e na administração. A economia regional é frágil, com baixa produtividade, fortemente dependente de transferências do Estado e da União Europeia, e com uma despesa corrente elevada e crescente. Priorizar, neste momento, um tema como a semana de quatro dias parece, no mínimo, desconectado da realidade quotidiana da maioria dos açorianos. Acresce que a maior parte das experiências internacionais nesta matéria não implica trabalhar menos horas, mas apenas redistribuir as mesmas horas por menos dias. A Bélgica, por exemplo, permite que os trabalhadores concentrem as 38 horas semanais em quatro dias, sem redução salarial. O mesmo se verifica no Reino Unido e em várias empresas na Alemanha e nos Países Baixos. A Islândia é uma das poucas excepções, onde se registou uma efectiva redução das horas semanais, com manutenção dos salários, num contexto económico e institucional incomparavelmente mais sólido. Já a Suécia, que ensaiou esta abordagem em sectores públicos e privados, acabou por abandonar a ideia. O Governo sueco considerou financeiramente inviável a sua aplicação em larga escala, mesmo num país conhecido pela eficiência e solidez da sua administração. É legítimo perguntar: quem, nos Açores, poderá realmente beneficiar de uma semana de quatro dias? Os hospitais, os centros de saúde, as escolas públicas — conseguem estas instituições reorganizar-se de forma compatível com esta lógica? O cidadão comum, que já enfrenta dificuldades para marcar uma consulta ou garantir transportes regulares, será efectivamente beneficiado? A resposta é clara: a sociedade açoriana não está organizada, nem estruturada, para suportar esta mudança. As escolas não têm horários flexíveis. Os serviços públicos continuam presos a modelos antiquados. As empresas privadas, com margens reduzidas, dificilmente conseguirão absorver uma reorganização deste tipo sem perda de produtividade ou aumento de custos. Mais preocupante ainda é o facto de não terem sido dados os passos prévios indispensáveis: a modernização administrativa, a digitalização dos serviços, a avaliação objectiva da carga de trabalho nos sectores essenciais. Sem estas fundações, qualquer projecto experimental nesta área arrisca-se a ser mais um exercício teórico do que uma resposta real aos problemas concretos da população. Estudar novas formas de organização laboral é, naturalmente, legítimo e até desejável. Mas as prioridades não podem ser ignoradas. A prioridade nos Açores deveria passar por assegurar o funcionamento eficaz dos serviços públicos, apoiar as pequenas e médias empresas e melhorar, de forma sustentável, a qualidade de vida da população. Falar da semana de quatro dias quando ainda não conseguimos garantir a eficácia da semana de cinco é, no fundo, um paradoxo que custa a compreender. 38 horas semanaisAçoresProblemas estruturais 0 FacebookTwitterPinterestE-mail publicações anteriores FAO destaca importância da gestão na pesca sustentável próximas publicações Número de passageiros desembarcados nos Açores aumentou 2,3% em maio Leia também Nos Açores poderão as torneiras ficar secas como... 20 de Julho, 2026 Em memória do meu amigo Álvaro Matos, que... 16 de Julho, 2026 Capital Europeia da Cultura: Compromisso Regional 14 de Julho, 2026 Os Filhos da Reconstrução 7 de Julho, 2026 Reflexões a 4 anos da Agenda 2030: Será... 6 de Julho, 2026 Em memória do meu amigo Álvaro Matos: Quando... 2 de Julho, 2026 Deixe um comentário Cancelar resposta Guardar o meu nome, e-mail e página Web neste navegador para a próxima vez que eu comentar. Δ