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Conto de Natal

por Incentivo
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Na casa da família Baltazar, era grande a azáfama. Era o dia de celebrar a Consoada que reunia cerca de vinte pessoas. O que correspondia a quatro gerações. Para além da criadagem habitual, foram contratadas mais duas mulheres: uma para auxiliar na cozinha; outra para ajudar na limpeza e arrumo da casa. À arvore de Natal e ao Presépio, imprescindíveis para a família, apenas faltavam uns últimos retoques.

Foi então que para surpresa geral, o único bisavô sobrevivo sugeriu que se procurasse um sem-abrigo para confraternizar com a família. A ideia não beneficiou da concordância da maioria dos familiares, mas os bisnetos apoiaram alegremente a sugestão. Não havia mais que discordar.

Chamaram o chauffeur a quem incumbiram de procurar um sem-abrigo. Ele disse que até conhecia um com quem conversava uma vez por outra e lhe dava uns trocos.

Chegado junto do sem abrigo disse-lhe a que vinha. Surpreendentemente o sem- abrigo, agradeceu, mas recusou. Disse que já tinha vivido uma experiência dessas e jurou para nunca mais. Nunca se sentira tão humilhado na sua vida. Finda a ceia levaram-no à missa, mas fizeram-no sentar nos primeiros bancos enquanto eles foram para os primeiros da frente. Logo que acabou a missa ele veio a pé para o seu cantinho, sem se despedir. A distância não era assim tanta. Nunca o apreciou tanto como naquela noite.

– Respeito a tua decisão. A propósito, o teu serra da estrela? Morreu?

– Antes fosse isso, respondeu. É mais uma razão para eu rejeitar o convite.

– Então?

Ele gosta muito de crianças e elas normalmente retribuem com uma carícia que ele adora.

Mas ontem passou aqui perto uma criança pela mão do pai que se assustou e o pai para além de me insultar foi queixar-se à polícia. À tarde chegaram aqui dois agentes da PSP que o levaram para o canil.

– E tu não reagiste? – Para quê? Fiquei aqui chorando e pedindo a Deus que me levasse.

– Lamento!

Chegado ao carro pensou “lamento uma ova”. Vou tentar proporcionar àquele pobre uma felicidade que a presença na consoada nunca proporcionaria. Dirigiu-se ao canil a pretexto de adquirir um cão.

Disseram-lhe que escolhesse. Ele que conhecia o cão, que, aliás, mal o viu abanou a cauda, deu uma volta, para fingir que escolhia, e depois perguntou: – Aquele serra da estrela? – Está pronto a ser levado! Lavado, desparasitado, vacinado e até já tem o chip. – E que tenho a pagar? – Nada! Se quiser ofereça ao canil umas sacas de ração. – Prometo fazê-lo logo que possa! Passou pelo mercado e comprou uma saca de ração e uns bombons, mas para o serra da estrela. A cena do reencontro do cão com o dono é indescritível. O cão lançou-se ao dono e lambia-lhe as mãos e até a cara. O dono só chorava, mas desta vez de alegria. Agarrou as mãos do chauffeur que beijou. E desejou-lhe toda a felicidade do Mundo. Chegado a casa informou os patrões que não encontrara o sem-abrigo o que, segundo percebeu, os deixou aliviados. Após transportar para suas casas os últimos convidados, passou pela cozinha e pediu à cozinheira que arranjasse um saquinho com comida para duas pessoas. Retirou uma garrafa de vinho e foi ter com o sem-abrigo. Este entretanto já se tinha retirado para debaixo do abandonado alpendre e estava com um cobertor que o cobria a ele e ao cão.

Sentou-se ao lado deles e começaram a comer. Só que o cão percebeu que o que eles comiam era mais apetitoso do que a ração e também quis participar do repasto. Valeu que a cozinheira fora generosa. Sempre que pensa nesse seu gesto entende que foi a sua noite de Natal mais emocionante. Nunca passa pelo sem- abrigo que não pare para afagar o cão, que já se afeiçoou a ele, manifestando a sua alegria abanando a cauda freneticamente.

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