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Direito à Greve: O mundo não começou no nosso tempo!

por Incentivo
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O mais preocupante é quando trabalhadores se voltam contra outros trabalhadores, repetindo discursos que enfraquecem a capacidade de reivindicação coletiva. Uma sociedade onde cada um pensa apenas no seu conforto imediato torna-se inevitavelmente mais injusta e desigual.

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Vivemos numa época em que muitos dos direitos conquistados pelos trabalhadores são tratados como garantidos, quase naturais. Porém, convém recordar uma verdade essencial: nada nos foi oferecido. Cada direito laboral existente nasceu da luta coletiva, da coragem e da resistência de quem recusou aceitar a injustiça como destino.

Hoje, a greve é frequentemente apresentada como um incómodo ilegítimo, um exagero ou até um “capricho ideológico”. Não é. A greve não pertence à esquerda ou à direita, nem a qualquer partido político. É uma conquista democrática fundamental e um instrumento de liberdade.

Durante a Revolução Industrial, trabalhadores viviam sujeitos a jornadas desumanas, salários miseráveis, ausência de descanso e total falta de proteção social. Individualmente, tinham pouca força perante o poder económico. Foi dessa realidade que nasceram os sindicatos: organizações criadas para defender dignidade, melhores salários e condições de trabalho mais humanas. Graças a essas lutas conquistaram-se direitos como as oito horas de trabalho, o descanso semanal, férias pagas, segurança social e proteção no desemprego.

Também os direitos laborais das mulheres foram conquistados neste contexto de luta sindical e social. Durante décadas, as mulheres enfrentaram desigualdade salarial, discriminação profissional e ausência de proteção na maternidade. Foi através da reivindicação coletiva que se conquistaram direitos fundamentais como a licença de maternidade, proteção durante a gravidez e avanços na igualdade no trabalho. A emancipação laboral das mulheres não surgiu por generosidade do sistema; surgiu porque houve quem lutasse por ela.

Por isso é profundamente injusto ouvir discursos que reduzem a greve a um transtorno causado “junto aos feriados” ou “é sempre à sexta ou à segunda”.

Quem faz greve perde o seu salário! Sacrifica rendimento pessoal em nome de uma causa coletiva. E muitas vezes fá-lo também em benefício daqueles que os criticam. Muitos dos que hoje atacam as greves usufruem diariamente de direitos conquistados graças a essas mesmas lutas.

A greve incomoda? Claro que incomoda. Foi precisamente para isso que foi criada. Uma greve invisível seria inútil. O seu objetivo é chamar a atenção para problemas que o poder prefere ignorar: baixos salários, precariedade, degradação dos serviços públicos, falta de condições e desrespeito pela dignidade laboral.

O mais preocupante é quando trabalhadores se voltam contra outros trabalhadores, repetindo discursos que enfraquecem a capacidade de reivindicação coletiva. Uma sociedade onde cada um pensa apenas no seu conforto imediato torna-se inevitavelmente mais injusta e desigual.

O mundo não começou no nosso tempo. Outros fizeram um longo percurso para que hoje possamos ter a liberdade de estar a favor ou contra as greves, de concordar ou discordar, de protestar ou permanecer em silêncio. Mas não nos iludamos: aquilo que hoje nos permite dizê-lo pode também estar a acabar se deixarmos de valorizar os direitos conquistados e os instrumentos democráticos que os defendem. Basta olharmos em volta. A história mostra- nos que nenhuma liberdade é eterna quando as sociedades se tornam indiferentes à injustiça e ao egoísmo individual.

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